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quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Resenha: Revelação Brutal / Louise Penny

 “Era vital estar ciente das próprias ações no presente. Porque o presente se tornava o passado, e o passado crescia. Depois se levantava e seguia você. E o encontrava.”

‘Revelação Brutal’ é o quinto livro da série do Inspetor Gamache. Retornamos a Three Pines, e dessa vez há um morto sem identidade no bistrô do Olivier. Nossa jornada ao lado do Gamache é tanto para descobrir quem morreu, quanto quem matou. E adianto que não será nada fácil nem para os moradores do vilarejo, nem para nós leitores, muito menos para o querido inspetor, aceitar que o assassino é quem é. 

    Quando eu comecei a ler os livros do Gamache me perguntei, como é possível tantos assassinatos num vilarejo tão pequeno? Vai chegar num ponto em que não vai ter mais personagens, vai todo mundo ou ser um assassino ou ser assassinado, não é possível, eu pensei. Mas eu estava enganada. A cada novo livro Louise Penny vai aprofundando todos os personagens que já conhecemos. E cada livro vai ficando ainda melhor que o outro.

Por isso que hoje eu indico a leitura da série na ordem. Vai fazer muito sentido. E é fundamental ir conhecendo cada morador aos poucos, até chegar o momento em que ele é o protagonista da história, ou mesmo que temos a oportunidade de saber mais sobre seu passado. No final da resenha tem a ordem da série.

“É um grande erro julgar os outros com base em nós mesmos. Uma das primeiras coisas que você aprende com o inspetor-chefe Gamache é que outras pessoas não necessariamente reagem como nós reagiríamos. E um assassino reage de formas ainda mais estranhas. Esse caso não começou com um golpe na cabeça. Ele começou anos atrás, com outro tipo de golpe. Alguma coisa aconteceu com o assassino, algo que talvez a gente considere insignificante, até trivial, mas que foi devastador para ele. Um acontecimento, uma esnobada, uma discussão que a maioria das pessoas deixaria para lá. Os assassinos não fazem isso. Eles ruminam; juntam e guardam ressentimento. E esses ressentimentos crescem.  Assassinatos têm a ver com emoções. Emoções que acabaram mal e fora de controle. Lembre-se disso. E nunca ache que você sabe o que outra pessoa está pensando, muito menos sentindo.”

Nesse livro 5, conhecemos mais sobre um personagem que é amado por todos no vilarejo, o Olivier. Ele tem um bistrô e é casado com o Gabri, mas além de conhecer mais sobre o seu passado, o que o levou à Three Pines, seus sonhos, também descobrimos que ele esconde muitos segredos. 

No primeiro capítulo temos uma conversa do Olivier com o Eremita, sobre ‘O Caos’ que estaria à espreita e a caminho de Three Pines. Olivier sai de uma cabana no meio da floresta com muito medo e no dia seguinte o corpo do Eremita está no bistrô, como assim? E o pior, Olivier finge para todos do vilarejo, que não conhecia o morto, enquanto nós leitores sabemos da verdade. Por que ele está mentindo? E como o corpo foi parar no bistrô? Todos do vilarejo ficam apreensivos.

O querido inspetor Gamache vai ter um grande quebra cabeça para desvendar e são muitas perguntas: quem é o morto? Onde ele foi assassinado? Não havia sangue no bistrô, então o local do crime não era ali, por que moveram o corpo? Qual foi a arma do crime? E assim como nos livros anteriores vamos mergulhar num emaranhando de pistas e ter muitas reflexões até conseguir desvendar tudo que aconteceu.

Chegando num ponto que me lembrei até do Robert Langdon, personagem dos livros do Dan Brown. Gamache vai ter que usar a cifra de César para tentar desvendar mensagens cifradas. Vamos viajar com ele para a Ilha Rainha Charlotte e descobrir muitos tesouros perdidos. 

Um dos pontos mais legais dos livros da Louise Penny é a parte cultural. Seus livros são ricos em referências e citações, já que nosso inspetor é um homem muito culto, apreciador de arte e literatura, são diversas as citações de frases icônicas e muitos aprendizados também. São diversas quotes legais e que fazem o leitor refletir demais.

“A riqueza de um homem se mede pelas coisas que é capaz de deixar de lado.”

Alguns dos nossos velhos conhecidos estão com novidades:

🍂A Ruth, que continua com sua pata de estimação, agora até mesmo colocando roupas nela devido ao frio. A Ruth está num embate com o Beauvoir, o braço direto do Gamache, ela fica mandando papéis com pedaços de um poema, que deixa o Beauvoir super irritado, mas será que é o poema é uma pista?

🍂A Clara e o Peter, enquanto ela está vendo sua carreira enfim decolar, algo vai tirar tudo dos eixos, além do Peter continuar sendo um péssimo parceiro que não aceita que ela brilhe mais que ele. O que será que ele é capaz de fazer para não ficar ‘para trás’?

🍂A Myrna, como sempre tendo o livro certo para ajudar na investigação. E sempre tenta desvendar o que o Gamache está querendo descobrir quando pede algum livro, será que ela sabe mais do que diz?

🍂O agente Beauvoir, como sempre irritado com as ‘viagens’ filosóficas que o chefe faz, mas que continua sendo o melhor aliado do Gamache na investigação.

Novos personagens na área:

🍂A casa dos Hadleys tem novos moradores, o casal Marc e Dominique e Carole, mãe do Marc. Uma família que largou tudo na cidade grande e quer transformar a antiga casa em um spa, isso que deixa o Gabri irritado porque será uma concorrência para a sua pousada. Além disso, segredos do passado do Marc irão aparecer em Three Pines.

🍂O Velho Mundim, que conserta imóveis e restaura antiguidades, sua esposa e seu filho, este que trabalha no bistrô. Eles têm raízes tchecas e podem estar escondendo alguma coisa.

🍂O agregado, o agente Morin, um jovem policial proativo que Gamache convida para a equipe, será que foi uma boa decisão trazer alguém inexperiente pro time?

O final é surpreendente e difícil de aceitar. É como de fato ter sido traído por esse personagem. E o ponto principal é a ganância, até onde ir pelo dinheiro? Quanto é o bastante? Dinheiro é sinônimo de felicidade ou só atrai ‘o caos’? Vale a pena mentir para todos aqueles que você ama pela riqueza? Bem, um personagem, nosso assassino, fez todas suas escolhas moldadas pela ganância, e a revelação da sua identidade é brutal, tanto para o leitor quanto para todos em Three Pines.

“Alguém muito perigoso caminhava entre eles. Alguém que parecia feliz, atencioso e até delicado. Mas aquilo era um disfarce. Uma máscara. Gamache sabia que quando encontrasse o assassino e tirasse aquela máscara, a pele viria junto. A máscara havia se tornado a pessoa. O disfarce era total.”


Confira as resenhas dos outros livros da série:

Livro 1: Natureza Morta 

Livro 2: Graça Fatal

Livro 3: O mais cruel dos meses 

Livro 4: É proibido matar

domingo, 23 de outubro de 2022

Resenha: Graça Fatal / Louise Penny

É Natal em Three Pines!

Tempo de paz, amor de estar junto com quem amamos, comprar presentes, jogar curling e no meio do maior festejo da cidade, na frente de todo mundo: um assassinato.

Como assim? Quem teve essa audácia de assassinar alguém na frente de tantas testemunhas sem ser visto? E não foi um assassinato comum, foi muito bem planejado durante o maior festejo de Natal da cidade, uma partida de curling.

“Era quase impossível eletrocutar alguém, a menos que você fosse o governador do Texas. Fazer isso em um lago congelado, na frente de dezenas de pessoas, era loucura. Alguém tinha sido insano o suficiente para tentar. Alguém tinha sido brilhante o suficiente para conseguir.”

Esse é o segundo livro da série Inspetor Gamache, você pode conferir a resenha do livro um, Natureza Morta, aqui. Entretanto não tem nenhum problema ler fora de ordem, todos os livros tem um caso único e resolvido no próprio livro. Os livros do Gamache fazem parte da coleção Mistérios em série, que são livros para ler sem medo, com investigações sem mortes macabras ou muito sangue.

E a pessoa que foi assassinada é ninguém menos que CC de Poitiers, entre todas pessoas que a conheceram, nenhuma delas gostava dela. Ela era o tipo de pessoa que quando chegava acaba com o clima, deixava todo mundo incomodado, se achava superior e não tinha pudor nenhum de dizer isso, além de esnobar todos ao seu redor. Bem, o fato é que, suspeitos não faltam. É mais fácil perguntar quem não queria matar CC de Poitiers.

Gamache então é convocado. Ele e sua esposa estão fazendo algo que fazem todo Natal: investigar casos não solucionados (cada um com suas esquisitices, né não). Ele se depara com um caso que o deixa cheio de questionamentos: a morte de uma moradora de rua, a Elle. Quem iria assassinar uma bondosa senhora, que nunca fez mal a ninguém? Ele se questionava e algo o dizia que tinha mais ali.

Logo no início do livro somos apresentados a CC, ela havia acabado de lançar um livro sobre sua própria filosofia de vida e estava preparando um outro mega lançamento, ela se achava muito superior aos moradores de Three Pines e a gente fica se perguntando o motivo que fez ela comprar uma casa lá e se mudar com sua família. E falando da sua família, seu marido era um inventor que nunca havia inventado algo de fato útil e rentável, e sua filha, além de sofrer bullying na escola, também era constantemente humilhada pela própria mãe. 

Conforme vamos lendo, chega num ponto que até nós mesmos viramos suspeitos, que pessoa insuportável e totalmente estraga prazeres era a CC!

O fotografo, Saul, quem a CC havia contratado para que ele fizesse registros de seu novo projeto, com quem ela tem um caso extraconjugal, a odeia e fica vendo os piores ângulos dela para fazer as fotos, seria ele o assassino? A lista só vai aumentando.

Os moradores, que foram apresentados no livro anterior estão de volta:

🌲Clara e Peter: o casal que ajudou Gamache no caso anterior novamente vai ser de grande auxílio, já que eles, sem saber possuem uma peça chave para desvendar todo o mistério. Tanto Clara quanto Peter são artistas, mas apenas o trabalho de Peter é reconhecido, Clara sonha em expor sua arte em grandes galerias. Ela ouviu CC falando mal de seu trabalho e ficou triste demais.

🌲Ruth: a escritora rabugenta, que acabara de lançar seu livro, estou bem DEMAIS, será mesmo? Ela julgava muito o livro que CC tinha lançado, já que nada fazia sentido nele.

🌲Mãe Bea: a guru de Three Pines, que tem um estúdio muito good vibes e outras duas melhores amigas, também senhoras e velhas moradoras de Three Pines. Mãe Bea ficou muito estressada depois de saber que CC usava mantras sem nem ter noção do que falava.

🌲Myrna: que sempre ajuda todo mundo e é amiga de todos, é dona da livraria da cidade, será que é apenas uma alma bondosa mesmo?

🌲Gabri e Oliver: o casal que tem uma pousada e um bistrô e sabem sempre de tudo que está acontecendo na cidade.

E na polícia também temos rostos conhecidos, o principal é o retorno da Agente Nichol, com quem Gamache teve um desentendimento e quem ele não conseguia confiar, será que vai dar certo? O pior é que Gamache acredita que mandaram ela de volta como uma forma de punição devido a um caso antigo e mal resolvido que vamos descobrindo ao longo das páginas.

E novamente lendo esse livro, eu me senti como num jogo de tabuleiro, os primeiros capítulos vão nos dando pistas, apresentando personagens e aos poucos as peças vão se juntando, vamos criando teorias até tudo ser desvendado, quando as peças vão se juntando é impossível largar o livro.

Quando a Gamache descobre que o livro da CC tem o mesmo nome do estúdio da Mãe Bea, ele fica muito intrigado, será apenas uma coincidência? E a forma que ele investiga envolve muito a observação. E o contexto do crime envolve tantos detalhes que faz com que a equipe policial precise tanto investigar lixeiras quanto ter aulas de História. 

O mais legal dos livros do Gamache, agora após ler o segundo, posso afirmar que sempre teremos muitas reflexões nas páginas, seja morais, religiosas, históricas. Ninguém é totalmente bom ou mau e Louise Penny através do Gamache consegue explorar muito bem todas as camadas que envolvem um ser-humano.

“Porque Armand Gamache sabia algo que muitos de seus colegas nunca entenderiam: assassinatos são profundamente humanos, tanto o assassino quanto a vítima. Descrever o assassino como um monstro, um ser grotesco, era dar uma vantagem injusta. Não. Assassinos eram humanos, e na raiz de cada assassinato havia uma emoção. Deformada, sem dúvida. Distorcida e feia. Mas uma emoção.”


Confira a resenha do livro 1 da série: Natureza Morta