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terça-feira, 24 de março de 2026

Resenha: O longo caminho para casa / Louise Penny

O que é a vida senão uma tela em branco? Mas e se, por mais talentoso que você fosse, não conseguisse encontrar as cores certas e a tela ou a vida se torna um grande incômodo, ver outros colorindo suas próprias telas, progredindo, alcançando o que você deseja, poderia fazer com que você se tornasse um assassino?

Chegamos ao livro 10 da série do Inspetor Gamache, "O longo caminho para casa" é um livro sobre, principalmente, coragem. No meio de lugares exóticos e teorias artísticas, vamos descobrir que obras de arte também podem se tornar armas letais.

Não canso de dizer para que deem uma chance a essa série, os primeiros livros são um pouco cansativos, mas cada livro fica melhor, parece repetitivo dizer, mas após cada leitura, eu fico mais fã do Inspetor Gamache. Para além das reviravoltas e investigação, os livros nos fazem refletir a bessa e são verdadeiras aulas sobre as mais diferentes temáticas. 

"Eu vou rezar para que você se torne um homem corajoso numa terra corajosa. Eu vou rezar para que você encontre uma maneira de ser útil."

Peter não voltou para casa, esse é o nosso pontapé inicial. Um ano antes, Clara havia combinado com ele que ficariam separados por um ano e daí iriam se reunir para ver se romperiam ou continuariam o casamento, mas no dia combinado, Peter não aparece.

Eu indico muito a leitura dos livros em ordem, agora no livro 10, já e possível reconhecermos os personagens pela suas atitudes. O Peter, por exemplo, nunca apoiou 100% a esposa e quando ela alcançou o sucesso com a sua própria arte, ele sentiu inveja, porque ela o havia superado, enquanto a Clara só tinha amor pro Peter, até o momento da separação, ela sempre fez tudo por ele, aceitou suas condições para qualquer coisa, nós leitores sempre estávamos cientes dos sentimentos e pensamentos do Peter e muito disso tem relação com a família dele também, que em livros anteriores descobrimos estar longe de ser uma relação saudável.

Mas agora, onde está o Peter? Por que ele não voltou? O que aconteceu com ele? Não mandou nem uma cartinha...

Nosso querido Gamache está aposentado, finalmente morando em Three Pines com sua esposa e seu amigo de quatro patas. Depois dos acontecimentos do último livro, tudo que ele precisava era de um repouso, o que ele não poderia esperar era que a Clara iria pedir ajuda, ou melhor, ele iria perceber que ela precisa de sua ajuda.

Ela quer saber onde Peter está, mesmo com medo da resposta, ela precisa saber, não importa que isso possa partir (ainda mais) o coração dela, e o temor do inspetor é ainda mais tenso, encontrar o Peter, mas morto. A pergunta é: o que será que aconteceu com ele para que não retornasse?

"Durante toda a sua vida profissional, o inspetor-chefe havia feito perguntas e caçado respostas. E não só respostas, mas fatos. Porém, muito mais esquivos e perigosos que os fatos, o que ele realmente buscava eram sentimentos. Porque eles o conduziam à verdade."

Refazer os passos do Peter faz com que Clara, ao lado de Myrna, Gamache e claro o Beauvoir, embarquem nova jornada por lugares muito inusitados, revisitando o passado para entender todos os lugares por onde Peter passou.

Mas dessa vez, nosso inspetor não irá liderar a investigação, ele deixa a liderança nas mãos da Clara, o que deixa Beuavoir com os nervos a flor da pele.

"Os investigadores sabiam que as pessoas que partiam de repente estavam fugindo da infelicidade. Da solidão. Do fracasso. Elas corriam para longe, achando que se tratava de um problema de localização. Pensavam que podiam começar do zero em outro lugar. Quase nunca dava certo. O problema não era geográfico."

Eu estou extremamente apegada aos personagens dessa série, eles já parecem meus amigos, então, mesmo não sendo um dos meus personagens favoritos, eu fiquei muito ansiosa para entender o que aconteceu com o Peter.

Em todo livro do Gamache aprendemos muito, nesse não é diferente, você conhece as nove  musas gregas? Já ouviu falar da décima? Se prepare para descobrir uma teoria, não muito bem aceita pelos estudiosos... E analisar obras de arte? Nesse livro, vamos imaginar as mais diferentes telas e tentar decifrar o que elas querem nos dizer, ou o que nos fazem sentir.

Ter um propósito, não importa qual seja, faz com que completar a tela em branco da vida fique mais fácil, o livro faz a gente pensar sobre escolhas, amor e arte, e como na vida tudo está sempre conectado, cada pincelada pode revelar um novo caminho, seja para casa ou não. 

"Eles haviam feito tantas suposições para que as conclusões se encaixassem nos fatos. Mas, na verdade, estavam vendo tudo de cabeça para baixo."



Confira as resenhas dos outros livros da série, na ordem: 

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Resenha: A luz entre as frestas / Louise Penny

Pegue o seu gorro, separa sua luva e munido da sua lupa, partiu viajar para Three Pines mais uma vez? Acho que já posso falar que tenho uma residência fixa por lá, ‘A luz entre as frestas’ é o livro 9 da série do Inspetor Gamache e um dos mais emocionantes.

    Será que a luz sempre é capaz de superar a escuridão? E se o buraco for tão fundo, mas tão fundo que nenhum resquício de luz consegue chegar lá? Nós vamos descobrir que a luz pode iluminar mesmo que a frestas seja bem pequena. 

Gamache sempre acreditou que as coisas boas superariam as ruins, que no final, por mais difícil que fosse o percurso, o bem venceria, bem, até esse livro. O Gamache aqui não está no seu auge, pelo contrário, está cabisbaixo, quase destruído. Seu departamento foi desmembrado, seus queridos agentes espalhados, seu braço direto e melhor amigo, se virou contra ele, será que valia a pena continuar lutando? A resposta, não surpreende, sim. Nosso querido inspetor não vai cair sim antes lutar (e muito).

Gamache é desacreditado o tempo todo, mesmo que ele afirme que há algo acontecendo, as pessoas ficam ironizando e subestimando o grande inspetor. Uma agente que já conhecemos em livros anteriores e eu particularmente peguei um ranço dela, está de volta e além disso ajuda a bessa no caso.

“A nossa vida é como uma casa. Algumas pessoas são admitidas no jardim; outras, na varanda; e outras, no vestíbulo ou na cozinha. Os melhores amigos são convidados para avançar mais ainda, até a sala de estar.”

Em quem confiar, quando você não sabe mais quem é confiável? Quando todos que estão ao seu redor podem estar corrompidos, seu telefone e sua sala estão grampeados e quando você conta ao psicólogo, o diagnóstico é sobrecarga de trabalho e recomendação de afastamento, ninguém acredita em você. É assim que o Gamache está, numa espécie de ilha.

Nesse livro temos duas histórias, a primeira que vem se desenrolando por diversos livros da série, sobre conspirações dentro da polícia, que remontam ao passado do Gamache e a tentativa de terrorismo, tudo isso que nós já lemos em livros anteriores. Eu sempre fiquei muito curiosa para entender toda essa conspiração que sempre tirou noites de sono do Gamache, foi incrível descobrir tudo. A segunda envolve um famoso e antigo caso das quíntuplas, o milagre do passado e a vida obscura, imagina cinco bebês nascerem de uma só vez?

Gamache vai até Three Pines a pedido da Myrna. Uma querida amiga dela, ficou de retornar ao vilarejo para o Natal, mas não dava sinal de vida desde uns dias, ela pede ajuda ao nosso inspetor favorito.

E uma morte que a princípio poderia parecer natural, é na verdade uma cena de um assassinato, e o passado da vítima evidencia que pode ter mais complexidades do que a princípio se imaginou: ela era uma das quíntuplas. 

“O medo quando descontrolado, se tornava pavor, o pavor crescia até virar pânico, e o pânico criava o caos. E, então, era um deus nos acuda.”

A visitante

Constance vai até Three Pines e é acolhida pelos moradores, amiga de longa data da Myrna, Constance passa alguns dias conhecendo e se conectando com todos os moradores. Mas ela que parecia ser apenas uma senhora reclusa, na verdade é uma celebridade antiga, quase uma lenda. 

Jean Guy

Como é dolorido ler sobre o Jean Guy nesse livro, e vê-lo distante do Gamache partiu o meu coração. O Gamache não deixa de se preocupar com ele, mas há um abismo entre os dois. A gente fica se perguntando se é possível que eles se reconectem. 

Ruth e a pata

A famosa poeta, que alguns dizem ser doida (não somos todos, afinal?), está com sua fiel escudeira, uma pata. Nos faz pensar muito com suas falas e observações. É com um ‘eu te amo’ que ela vai ajudar nosso querido inspetor, mesmo sem saber que estava ajudando.

“Quem te machucou uma vez

de maneira tão irreparável,

que te fez saudar cada oportunidade

com uma careta?”

Individualidade

O caso das cinco irmãs gêmeas me fez pensar sobre individualidade, como ser você mesmo, se existem várias cópias de você? E mais, como ser indivíduo quando você sempre foi visto apenas como um conjunto? São vários dilemas. Logo após a Grande Depressão, a família delas, que sempre foi muito humilde acaba se envolvendo com o governo, e todos os desmembramentos são muito interessantes e bem tristes.

Egoísmo e poder

Existem limites para o egoísmo? E para a busca pelo poder? Tanto no desdobramento e revelação do mistério que vem permeando livros anteriores, envolvendo superiores do Gamache, ao caso envolvendo as quíntuplas, o egoísmo e poder são fatores importantes. 

O final é muito eletrizante e muito emocionante. O final de uma jornada, bonito demais! Fiquei emocionada de verdade. Three Pines já virou uma espécie de lar pra mim, me sinto em casa com esses personagens e com todas as reflexões que a Louise Penny coloca em jogo através de todos eles. 

Toda resenha sobre um livro novo dessa série, eu falo a mesma coisa: é o melhor! E de novo, preciso dizer que esse é o melhor livro da série (até agora). Já é o livro 9 e os personagens já são como meus amigos, eu conheço muito bem cada um deles e principalmente torço por eles e sei em quem posso confiar, então a leitura tem uma profundidade muito maior, porque eu entendo o papel de todos os personagens e que cada um deles tem suas próprias batalhas. Todo livro tem novidades sobre a vida de cada um. E a escolha que um personagem precisa fazer na reta final do livro é de matar (literalmente).

“Todos nós temos nossos albatrozes.” 


Confira as resenhas dos livros anteriores (em ordem de leitura):

Natureza-morta

Graça fatal

O mais cruel dos meses

É proibido matar

Revelação brutal

Enterre seus mortos

Um truque de luz

O belo mistério

A luz entre as frestas

sábado, 19 de abril de 2025

Resenha: O belo mistério / Louise Penny

Como desvendar um assassinato que ocorreu num lugar onde ninguém pode prestar depoimento, porque não podem falar? Estão em voto de silêncio.

O belo mistério envolve música: monges e cantos gregorianos. Louise Penny nos leva para um lugar remoto e de localização não muito precisa, oculto no meio de muita névoa, após uma travessia pela água, nós chegamos ao mosteiro. Local de um crime.

Esse livro me respondeu à pergunta que eu tinha feito lendo livros anteriores, como tantas mortes podem ocorrer em Three Pines? Dessa vez, a gente saiu de lá e foi incrível. Conhecer esse novo ambiente, ver o Gamache longe de todas aquelas pessoas que já se tornaram amigos dele. E não confiar em ninguém. A maior surpresa, foi que até mesmo a vida do próprio inspetor vai ficar em risco. 

Monges silenciosos, que mesmo sem o voto em vigor não sabem muito bem se expressar com palavras, mas eles cantam. O canto gregoriano que está no cerne de tudo, ao mesmo tempo que foi uma benção, também foi o que fez com que o mosteiro se dividisse.

A música faz parte da vida dos monges, é através dela que eles se conectam com a sua própria fé e se sentem mais próximos de Deus. Não é apenas uma música para eles. As coisas começaram a mudar quando eles realização uma gravação, que viralizou, então mesmo que os monges não fossem conhecidos e muito menos a sua localização, as suas vozes encantaram o mundo inteiro e isso gerou uma renda nunca vista antes para o mosteiro.

“Era como se o canto gregoriano entrasse no corpo das pessoas e rearranjasse o DNA delas, de modo que se tornassem parte de tudo à sua volta. Já não havia mais raiva, competição, vencedores ou perdedores. Tudo era esplêndido e igual. E todos estavam em paz.”

As vozes chegaram no nosso inspetor Gamache, ele tinha um CD com a gravação e as achava as divinas, mal sabia ele que teria que investigar o assassinato de uma delas.  E é assim que Gamache e Beauvoir irão precisar passar uma temporada em um lugar distante, um lugar que não aceita visitantes, o mosteiro de Saint-Gilbert-Entre-les-Loups, escondido nas florestas do Quebec.

Lá eles encontram um corpo, o do prior, Frère Mathieu, o regente do coro, e teremos 23 suspeitos. Logo descobrimos que o mosteiro estava divido entre tradição e modernidade, os ‘homens do abade’ vs os ‘homens do prior’, os que não queriam nova gravação, pensavam que deveriam respeitar as tradições milenares e aqueles que queriam quebrar o voto de silêncio e levar suas vozes para o mundo.

“Os gilbertinos tinham sobrevivido à Reforma, à Inquisição. Tinham sobrevivido a quatrocentos anos na mata. Mas finalmente haviam sido encontrados. E abatidos. E a arma usada fora exatamente o que eles queriam proteger: o canto gregoriano.”

Quem é o monge assassino?

Conforme vamos lendo, todos eles têm motivos. É impossível não suspeitar de todos, e descobrir que os alicerces do mosteiro estão podres e que essa informação não foi divulgada a todos, coloca ainda mais suspeitas em alguns monges, vou falar um pouco de alguns deles aqui:

♬Dom Philippe: o abade de Saint-Gilbert. Quem chamou a polícia até lá e quem também é o primeiro maior suspeito, ele é fiel às tradições e ao contrário do prior, não queria uma nova gravação.

♬Frère Luc: o porteiro. Ele é o monge mais jovem entre todos e guardava a entrada e saída do mosteiro, será que ele deixou alguém de fora entrar?

♬Frère Charles: o médico. Ele tinha acesso a todos os medicamentos e tratava todos os monges, ele saberia como esconder é um assassino, conhecimento ele tem.

♬Frère Raymond: o engenheiro, ele cuida das instalações e do sistema geotérmico do mosteiro, ele sabia que reformas estruturais são necessárias e que será preciso muito investimento nisso.

♬Frère Simon: o secretário do abade, ele é um confidente do abade e um ótimo suspeito, já que faz tudo para o interesse do Dom Phillippe, se livrar do prior era o interesse...

♬Frère Antonie: o único que bate de frente com o abade, e foi o solista da gravação do CD.

Neumas, notas musicais, fé, ganancia, Intrigas, segredos, mentiras... É possível confiar nos monges? Isso é o que Gamache fica se perguntando toda vez que faz questionamentos a algum dos monges, será que estão contando a verdade? Eles estão se protegendo? Quem está protegendo quem?

"O rei morreu, vida longa ao rei"

Esse ditado foi repetido algumas vezes durante o livro e é uma ótima reflexão sobre o fato de que a vida sempre continua, não importa o quão importante você seja ou acha que é. O mundo continua a girar independente de sua existência nele. Mesmo tendo uma voz muito exclusiva, ou sendo uma pessoa genial ou mesmo tão importante quanto um rei, com a morte, essa pessoa será substituída. É interessante pensar sobre a nossa própria insignificância perante o fluir da vida humana. 

O passado ainda segue presente, traumas de livros anteriores ainda ecoam tanto no Gamache quanto no Beauvoir, e a chegada inesperada do superior do Gamache no mosteiro, faz com que a bonita relação entre o inspetor e seu fiel agente fique estremecida. Beauvoir não sabe mais se pode confiar no chefe e a suspeita sobre a índole do Gamache vai ir o corroendo, até um ponto que ele não vai conseguir controlar. 

Os livros do Gamache nunca param de me surpreender positivamente. Ler “O belo mistério” foi como ir saboreando o meu doce favorito sem querer que ele acabe, fui lendo devagar e refletindo sobre todas as questões que foram levantadas. Nunca é apenas descobrir quem matou, a jornada até a descoberta é o que deixa o livro incrível. O mergulho no canto gregoriano, ir conhecendo os monges e perceber que todos ali tem conflitos próprios e podem nos ensinar muito, mesmo sem dizer nada fez com que esse se tornasse um dos meus livros favoritos da série. 

“Eu acho que, quando a gente se importa com alguém, tenta proteger o outro – disse Gamache, escolhendo as palavras com cuidado. – Mas, às vezes isso é como bloquear um goleiro em um jogo de futebol ou hóquei: em vez de proteger o jogador, você só faz com que seja mais difícil para ele ver a ameaça que está vindo. E o mal é causado. Por engano.”


 Confira as resenha dos outros livros da série:

1- Natureza-morta

2- Graça Fatal

3-O mais cruel dos meses

4- É proibido matar

5- Revelação brutal

6- Enterre seus mortos

7- Um truque de luz

8- O belo mistério

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Resenha: Um truque de luz / Louise Penny

‘Chiaroscuro’

Significado: um contraste muito forte. Um jogo de luz e sombra.

Quanto tempo vale esperar para realizar o seu maior sonho? Vale a pena esperar a vida inteira? Como você lida com críticas? Elas te destroem ou te impulsionam? Você acredita em si mesmo o suficiente para não se deixar abalar com as opiniões alheias? Vamos embarcar numa viagem ao mundo artístico ao lado do Gamache para descobrir todas essas respostas.

Um truque de luz é o sétimo livro da série do Inspetor Gamache, posso dizer sem medo algum que a série só melhora. Assumo que o primeiro livro eu achei um pouco cansativo, mas não desisti da série e essa foi a minha melhor escolha, os livros vão melhorando cada vez mais conforme vamos conhecendo os personagens e nos apegando a eles, ao ponto de nos sentirmos parte de Three Pines e reencontrar os personagens a cada novo livro é como rever velhos amigos.

O que você faz quando o seu maior sonho enfim está prestes a se realizar? Você fica confiante ou se sente uma fraude?

Clara Morrow é uma artista plástica que nunca foi reconhecida, pelo contrário, seu trabalho já teve críticas bem pesadas, mas ela não desistiu e enfim está realizando seu sonho: ter sua arte apreciada e exposta no Museu de Arte Contemporânea de Montreal, quem diria? Todos estavam encantados com seus quadros. Ela convidou os amigos próximos e alguns figurões do mundo artístico para uma recepção em Three Pines, onde comemorariam seu sucesso.

O que ela não poderia imaginar é que um corpo seria encontrado no seu jardim no dia seguinte ao dia de sua maior conquista. E um corpo de ninguém mais ninguém menos que uma crítica de arte, Lilian Dyson, conhecida por críticas ferozes e que também era uma amiga de infância da Clara, mas que depois de desentendimentos se afastaram, num primeiro momento é óbvio que Clara é a principal suspeita, mas será que vai ser tão fácil assim?

“Fatos eram necessários. Eles indicavam o caminho e ajudavam a formar a rede. No entanto, para encontrar o culpado, era necessário seguir não apenas fatos, mas sentimentos. As emoções fétidas que haviam transformado alguém em um assassino.”

Nosso querido inspetor Gamache terá que entrar em ação mais uma vez, com a ajuda do seu braço direito Jean Guy Beauvior e da agente Isabelle Lacoste. Todos os três ainda estão sofrendo as consequências dos acontecimentos trágicos do livro anterior: Gamache usou o que aconteceu como um trampolim para melhorar sua saúde, apesar de continuar sofrendo com tremores; Beauvoir segue precisando de medicações pesadas e além disso decidiu se separar de sua esposa, porque percebeu que o casamento era apenas uma conveniência, ele não a amava mais, ele ama outra mulher e terá que ter coragem para se declarar e a agente Lacoste, como sempre segue muito eficiente, Gamache decidiu que ela será promovida, será que ela é capaz de dar conta do caso como a investigadora principal?

Conforme eles investigam o passado da vítima, eles percebem que muitas pessoas teriam a motivação suficiente para o crime. No passado, Lilian destruiu diversas carreiras com suas críticas bem desumanas, mas quando eles conseguem contato com as pessoas próximas de Lilian no presente, eles a descrevem como uma boa pessoa, bem diferente daquela do passado, será que ela mudou, ou era um fingimento? Gamache nos leva a refletir sobre a natureza humana, será que podemos mudar? 

Os habitantes de Three Pines mais uma vez estão presentes, cada um com suas características únicas, Gabri e Olivier novamente estão juntos, Olivier precisa decidir se irá perdoar alguns personagens; Ruth com toda sua excentricidade está a espera de uma certa pata e sempre tem algum poema para dizer; Peter, o marido da Clara, continua escondendo segredos dela e também secretamente torcendo contra o sucesso da própria esposa, será que ele vai conseguir esconder tudo isso em mais um livro?; Myrna continua sendo a voz da razão para todos. Além deles temos diversos novos personagens do mundo artístico que irão se tornar suspeitos, uma dupla que ama criticar as obras alheias, três marchands que estão disputando o contrato com a Clara e um grupo dos Alcoólicos Anônimos.

“Não pela primeira vez, Myrna pensou que Three Pines parecia uma Sociedade Protetora dos Animais. Acolhendo os feridos, os indesejados. Os loucos, os maltratados. O vilarejo era um abrigo. Embora, é claro, não fosse um abrigo à prova de assassinatos.”

De toda a série, esse foi o livro que pra mim, teve mais momentos engraçados, eu ri em diversos momentos com algumas falas dos personagens, separei uma que o Beauvoir mesmo zoa o fato de acontecerem tantos assassinatos no vilarejo:

“ – Lacoste está arrumando a sala de investigação na antiga estação ferroviária.

- Bon – disse Gamache, começando a atravessar a rua, no que foi acompanhado por Beauvoir. – Talvez a gente deva criar um destacamento permanente lá.

Beauvoir riu.

- Por que o senhor não transfere logo a Divisão de Homicídios inteira para cá?”

O que mais me agrada nos livros do Gamache é o fato da Louise Penny explorar questões muito humanas, não é apenas sobre descobrir quem matou, mas entender como uma pessoa chegou nesse estágio de matar outra. As emoções envolvidas, os erros, escolhas, mentiras as camadas que todas as pessoas têm, ninguém é apenas um só aspecto, mas sim uma gama deles. É impossível não se colocar no lugar dos personagens, durante toda a leitura eu fico me perguntando o que eu faria no lugar de cada um deles.

O que define bem esse livro são as segundas chances, seja para si mesmo, seja para quem você ama ou mesmo para um desconhecido, conceder ou não um perdão pode dizer muito mais sobre si mesmo do que sobre os erros alheios e ser firme para se afastar de quem não merece uma segunda chance também pode ser bem complicado. Muitos personagens terão que tomar decisões difíceis, um deles vai escolher matar alguém, quem será o assassino?


Confira as resenhas dos livros anteriores:

1- Natureza Morta

2- Graça Fatal

3- O mais cruel dos meses

4- É proibido matar

5- Revelação Brutal

6- Enterre seus mortos

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Resenha: Enterre seus mortos / Louise Penny

 “Enterre seus mortos” é o sexto livro da série do Inspetor Gamache e uma imersão na História do Canadá. Ao mesmo tempo que temos três mistérios acontecendo, Louise Penny nos presenteia com uma verdadeira aula sobre Quebec e diversas questões que envolvem conflitos entre ingleses e franceses que se perpetuam desde da fundação do país. É um sobre sobre o passado, tanto do Canadá, quanto da própria série de livros e como se reconciliar com ele. 

Temos três casos:

Caso 1: Aquele que deu errado, envolvendo o Agente Morin. 

Caso 2: O assassinato do arqueólogo Augustin Renaud

Caso 3: O caso reaberto em Three Pines

Esse é o primeiro livro da série que não estamos intensamente no pequeno vilarejo de Three Pines. O Inspetor Gamache está passando uma temporada com seu antigo mentor, Émile, na Velha Quebec, se recuperando de um baque. Algo muito grave aconteceu com ele e sua equipe e nós leitores não fazemos ideia do que seja, apenas que foi muito sério, com mortes na equipe policial e que gerou um trauma bem grande, ao longo de todo livro vamos recebendo algumas pistas, até entender tudo apenas no final, e é bem chocante. 

“Como a mesma pessoa podia ser amável e cruel, compassiva e deplorável. Desvendar um assassinato dependia mais de conhecer as pessoas do que de encontrar evidências. Pessoas que eram perversas e contraditórias e que muitas vezes nem conheciam a si mesmas.”

É claro que como nada nunca é simples na vida do nosso querido inspetor Gamache, lá na velha Quebec ocorre um assassinato. O arqueólogo Augustin Renaud é encontrado morto no porão da Sociedade Literária e Histórica, ele era conhecido por pesquisar e buscar onde teria sido enterrado o corpo de Samuel de Champlain, conhecido como o fundador de Quebec. Acontece que Renaud era visto como um charlatão e nunca fora aceito nas comunidades dos estudiosos, mas se de fato ele era apenas um charlatão, por que ele fora assassinado? O que será que ele encontrou?

E mesmo tendo ido à Velha Quebec para se recuperar, o Gamache acaba sendo convidado para ajudar extraoficialmente nas investigações, que o leva à dois grupos: o Conselho da Sociedade Literária e Histórica e a sociedade Champlain. 

“Muito do que conhecemos como história não é verdadeiro. O senhor sabe disso, eu sei disso. A história serve a um propósito. Eventos são exagerados, heróis são fabricados, objetivos são reescritos para parecerem mais nobres do que eram na realidade. Tudo para manipular a opinião pública, para criar um propósito ou um inimigo comum. E qual é o pilar de um movimento genuinamente grandioso? Um símbolo poderoso. Destrua ou manche esse símbolo e tudo começa a desabar, tudo começa a ser questionado. Isso não pode acontecer.”

A Sociedade Literária e Histórica é da comunidade inglesa e é uma espécie de guardiã da cultura inglesa no Quebec. Por muitos anos recebeu uma quantidade enorme de livros que foram se amontoando na biblioteca, os recursos para gerir tudo estavam cada vez mais escassos. Em uma tentativa de obter renda, a biblioteca já promovera venda de livros, o que gerou muita polêmica. Ela era administrada pelo conselho, que era composto em sua maioria por senhores e senhoras já com idades avançadas. Todos são suspeitos e poderiam ter interesse na morte do Renaud.

Assim como os membros da Sociedade Champlain, que os guardiões da comunidade francesa e estudiosos aclamados quanto se trata do fundador, eles nunca aceitaram Renaud, muito pelo contrário sempre o trataram como uma piada, mas será que um deles seria capaz de matar o arqueólogo apenas por ser um fanático, ou será que havia mais segredos envolvidos.

Juntando ambos os grupos temos um rol de personagens suspeitos, e ao lado do Gamache vamos ao mesmo tempo conhecendo cada um deles e descobrindo mais sobre o passado do Canadá.

Enquanto isso, em Three Pines, o braço direito do Gamache, o inspetor Jean-Guy Beauvoir, também está se recuperando física e mentalmente, e depois de um pedido do chefe, ele vai até o vilarejo e buscar mais informações sobre o Eremita, a princípio com a desculpa de estar apenas passando férias ali, investigando ‘debaixo dos panos’. No livro anterior da série ‘É proibido matar’, um personagem foi acusado de ser o assassino do Eremita, foi condenado e está cumprindo pena. Porém, Gamache sente que errou nessa investigação e caso isso seja verdade, temos um assassino a solta e quem será ele ou ela? Qual foi sua motivação? A motivação para o Gamache pensar em reabrir o caso, foi devido a cartas enviadas constantemente pelo marido do suposto assassino ao inspetor, cartas que continham a seguinte pergunta: por que mover o corpo? Se o assassino fosse de fato o assassino por que colocar o corpo num local onde todos o encontrariam, não seria mais fácil apenas ‘se livrar’? Descobrir quem de fato é o assassino tem um plot twist gigante e que envolve tanto o livro atual, quanto o anterior.

E por fim, o caso que deu errado: ao longo do livro temos diversas conversas do Gamache com o agente Morin. A princípio é um pouco confuso, mas aos poucos vamos entendendo que é ao mesmo tempo lembranças e um trauma que se tornou presente na vida do inspetor. E o título do livro envolve muito esse caso, sobre conseguir superar o que aconteceu, não ficar revivendo o tempo todo. Não irei contar o que acontece porque é bem impactante e foi incrível descobrir aos poucos lendo.

“Aquela era, muitas vezes, a equação: abrir mão de alguns para salvar muitos. De longe, parecia tão simples, tão claro... Entretando, de longe é possível enxergar a situação como um todo, mas não toda a situação. Faltam os detalhes. Não se enxerga tudo a distância.”

O Gamache não é imbatível, ele pode errar. E ele errou. Durante todos os outros cinco livros nós conhecemos um inspetor meio que ‘a prova de balas’, parecia que nada de ruim poderia acontecer com ele ou com a equipe dele. Parecia que ele sempre conseguiria desvendar os casos mais obscuros, sempre chegando ao assassino, sempre conseguindo salvar todo mundo, mas não. ‘Enterre seus mortos’ tem um Gamache catando seus próprios cacos para se recolocar de pé. E isso me fez gostar ainda mais da série e do inspetor, nada mais humano do que os nossos próprios erros, né? 

“As coisas são mais fortes no ponto em que estão quebradas. Não se preocupe.”

O livro inteiro é repleto de citações de lugares que existem de verdade, eu me senti viajando por Quebec, assim como eu sinto que já saberia andar pelas ruas de Three Pines, dessa vez parece que passei algumas semanas no Canadá, descobrindo mais sobre a História do país. 


Confira as resenhas dos livros anteriores:

1- Natureza Morta

2- Graça Fatal

3- O mais cruel dos meses

4- É proibido matar

5- Revelação Brutal

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Resenha: Revelação Brutal / Louise Penny

 “Era vital estar ciente das próprias ações no presente. Porque o presente se tornava o passado, e o passado crescia. Depois se levantava e seguia você. E o encontrava.”

‘Revelação Brutal’ é o quinto livro da série do Inspetor Gamache. Retornamos a Three Pines, e dessa vez há um morto sem identidade no bistrô do Olivier. Nossa jornada ao lado do Gamache é tanto para descobrir quem morreu, quanto quem matou. E adianto que não será nada fácil nem para os moradores do vilarejo, nem para nós leitores, muito menos para o querido inspetor, aceitar que o assassino é quem é. 

    Quando eu comecei a ler os livros do Gamache me perguntei, como é possível tantos assassinatos num vilarejo tão pequeno? Vai chegar num ponto em que não vai ter mais personagens, vai todo mundo ou ser um assassino ou ser assassinado, não é possível, eu pensei. Mas eu estava enganada. A cada novo livro Louise Penny vai aprofundando todos os personagens que já conhecemos. E cada livro vai ficando ainda melhor que o outro.

Por isso que hoje eu indico a leitura da série na ordem. Vai fazer muito sentido. E é fundamental ir conhecendo cada morador aos poucos, até chegar o momento em que ele é o protagonista da história, ou mesmo que temos a oportunidade de saber mais sobre seu passado. No final da resenha tem a ordem da série.

“É um grande erro julgar os outros com base em nós mesmos. Uma das primeiras coisas que você aprende com o inspetor-chefe Gamache é que outras pessoas não necessariamente reagem como nós reagiríamos. E um assassino reage de formas ainda mais estranhas. Esse caso não começou com um golpe na cabeça. Ele começou anos atrás, com outro tipo de golpe. Alguma coisa aconteceu com o assassino, algo que talvez a gente considere insignificante, até trivial, mas que foi devastador para ele. Um acontecimento, uma esnobada, uma discussão que a maioria das pessoas deixaria para lá. Os assassinos não fazem isso. Eles ruminam; juntam e guardam ressentimento. E esses ressentimentos crescem.  Assassinatos têm a ver com emoções. Emoções que acabaram mal e fora de controle. Lembre-se disso. E nunca ache que você sabe o que outra pessoa está pensando, muito menos sentindo.”

Nesse livro 5, conhecemos mais sobre um personagem que é amado por todos no vilarejo, o Olivier. Ele tem um bistrô e é casado com o Gabri, mas além de conhecer mais sobre o seu passado, o que o levou à Three Pines, seus sonhos, também descobrimos que ele esconde muitos segredos. 

No primeiro capítulo temos uma conversa do Olivier com o Eremita, sobre ‘O Caos’ que estaria à espreita e a caminho de Three Pines. Olivier sai de uma cabana no meio da floresta com muito medo e no dia seguinte o corpo do Eremita está no bistrô, como assim? E o pior, Olivier finge para todos do vilarejo, que não conhecia o morto, enquanto nós leitores sabemos da verdade. Por que ele está mentindo? E como o corpo foi parar no bistrô? Todos do vilarejo ficam apreensivos.

O querido inspetor Gamache vai ter um grande quebra cabeça para desvendar e são muitas perguntas: quem é o morto? Onde ele foi assassinado? Não havia sangue no bistrô, então o local do crime não era ali, por que moveram o corpo? Qual foi a arma do crime? E assim como nos livros anteriores vamos mergulhar num emaranhando de pistas e ter muitas reflexões até conseguir desvendar tudo que aconteceu.

Chegando num ponto que me lembrei até do Robert Langdon, personagem dos livros do Dan Brown. Gamache vai ter que usar a cifra de César para tentar desvendar mensagens cifradas. Vamos viajar com ele para a Ilha Rainha Charlotte e descobrir muitos tesouros perdidos. 

Um dos pontos mais legais dos livros da Louise Penny é a parte cultural. Seus livros são ricos em referências e citações, já que nosso inspetor é um homem muito culto, apreciador de arte e literatura, são diversas as citações de frases icônicas e muitos aprendizados também. São diversas quotes legais e que fazem o leitor refletir demais.

“A riqueza de um homem se mede pelas coisas que é capaz de deixar de lado.”

Alguns dos nossos velhos conhecidos estão com novidades:

🍂A Ruth, que continua com sua pata de estimação, agora até mesmo colocando roupas nela devido ao frio. A Ruth está num embate com o Beauvoir, o braço direto do Gamache, ela fica mandando papéis com pedaços de um poema, que deixa o Beauvoir super irritado, mas será que é o poema é uma pista?

🍂A Clara e o Peter, enquanto ela está vendo sua carreira enfim decolar, algo vai tirar tudo dos eixos, além do Peter continuar sendo um péssimo parceiro que não aceita que ela brilhe mais que ele. O que será que ele é capaz de fazer para não ficar ‘para trás’?

🍂A Myrna, como sempre tendo o livro certo para ajudar na investigação. E sempre tenta desvendar o que o Gamache está querendo descobrir quando pede algum livro, será que ela sabe mais do que diz?

🍂O agente Beauvoir, como sempre irritado com as ‘viagens’ filosóficas que o chefe faz, mas que continua sendo o melhor aliado do Gamache na investigação.

Novos personagens na área:

🍂A casa dos Hadleys tem novos moradores, o casal Marc e Dominique e Carole, mãe do Marc. Uma família que largou tudo na cidade grande e quer transformar a antiga casa em um spa, isso que deixa o Gabri irritado porque será uma concorrência para a sua pousada. Além disso, segredos do passado do Marc irão aparecer em Three Pines.

🍂O Velho Mundim, que conserta imóveis e restaura antiguidades, sua esposa e seu filho, este que trabalha no bistrô. Eles têm raízes tchecas e podem estar escondendo alguma coisa.

🍂O agregado, o agente Morin, um jovem policial proativo que Gamache convida para a equipe, será que foi uma boa decisão trazer alguém inexperiente pro time?

O final é surpreendente e difícil de aceitar. É como de fato ter sido traído por esse personagem. E o ponto principal é a ganância, até onde ir pelo dinheiro? Quanto é o bastante? Dinheiro é sinônimo de felicidade ou só atrai ‘o caos’? Vale a pena mentir para todos aqueles que você ama pela riqueza? Bem, um personagem, nosso assassino, fez todas suas escolhas moldadas pela ganância, e a revelação da sua identidade é brutal, tanto para o leitor quanto para todos em Three Pines.

“Alguém muito perigoso caminhava entre eles. Alguém que parecia feliz, atencioso e até delicado. Mas aquilo era um disfarce. Uma máscara. Gamache sabia que quando encontrasse o assassino e tirasse aquela máscara, a pele viria junto. A máscara havia se tornado a pessoa. O disfarce era total.”


Confira as resenhas dos outros livros da série:

Livro 1: Natureza Morta 

Livro 2: Graça Fatal

Livro 3: O mais cruel dos meses 

Livro 4: É proibido matar

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Resenha: É proibido matar / Louise Penny

"Nunca use o primeiro vaso sanitário do banheiro público"
"Não se pode comprar leite em uma loja de ferragens"

O melhor livro do Inspetor Gamache até agora. Eu nunca iria imaginar o assassino e a forma como aconteceu, parecia um crime impossível. Fiquei muito curiosa para descobrir. Todas as nuances dos personagens vão nos apontando para diversas direções, todo mundo tem um motivo para matar. A regra é clara: é proibido matar. Mas quem será que não respeitou as instruções? 

 ‘É proibido matar’ é o quarto livro da série do Inspetor Gamache. Ele e sua esposa foram passar alguns dias de descanso, num local que conhecem bem, Manoir Bellechasse, eles irão comemorar o aniversário de casamento que cai no mesmo dia em que é celebrado o "dia do Canadá". 

“Desejos. Ambições. E ódio. Depois de anos investigando assassinatos, o inspetor-chefe Gamache sabia uma coisa sobre o ódio: ele conectava para todo o sempre o indivíduo à pessoa odiada. Assassinatos não eram frutos do ódio – eram um ato de liberdade. Uma tentativa de finalmente livrar o indivíduo daquele fardo.”

Tudo começa com um convite
Em Three Pines um carteiro que tem a fama de não ser eficiente, mas que na realidade curte mesmo é ficar passeando pelo vilarejo, entrega uma carta-convite, que o deixa com medo, quem foi convidado? Pra que?

E tudo está muito bem naquele ambiente bucólico, os Gamache estão curtindo seus dias, até que chega uma família bem esquisita por lá, seria uma versão da família Adams, e com todo o respeito aos Adams, já que os Finney, são muito mais esquisitos, mais complicados e muito ricos. 

-A matriarca: uma senhora muito nariz em pé, que trata os filhos com severidade. Depois da morte do seu marido, pai dos filhos, ela se casou novamente, com um cara que era amigo do ex, o contator dele. 

-Filho 1 Thomas e sua esposa Sandra: ele o filho de sucesso, conquistou tudo e se casou com a Sandra.

-Filha 2 Marianna: a filha esquisita, mãe de Bean (sim, feijão, e não sabemos se a criança é menino ou menina, é o prazer da Marianna fazer a família passar por essa vergonha ao apresentar feijão).

-Filha 3 Julia: a bondosa que nunca errou, ao mesmo tempo a rebelde que fugiu de casa jovem e se casou com um ricaço, que agora estava preso.

Uma mãe e quatro filhos já adultos, eles se reúnem anualmente, e dessa vez tinha um motivo mais especial: a inauguração de uma estátua, e não era uma estátua qualquer, seria para homenagear o falecido pai. 

Mas pera, falei 4 filhos, então alguém está faltando né? Lembra do convite? Então, os rostinhos já conhecidos para os leitores da série do Gamache e moradores de Three Pines são:

-Filho 4 Peter e sua esposa Clara: ele é o irmão, e aí entendemos que Morrow é o sobrenome do primeiro marido. Peter seria o irmão orgulho e fracassado aos olhos dos outros, o artista.

Foi muito interessante saber mais sobre o Peter. E entender porque ele é do jeito que é. Em algumas passagens dos outros livros, a gente sempre fica questionando as atitudes do Peter e pensando até onde ele poderia ir, foi muito legal saber suas origens e conhecer sua família. 

No meio da investigação, a gente ainda tem a oportunidade de conhecer o passado do Gamache e a história do pai dele. Foi um dos pontos altos do livro na minha opinião. O pai dele, tem a fama de covarde no país, mas Gamache tem muito orgulho do pai, muitos personagens vão tentar usar essa má-fama do pai, contra o Gamache, o que deixa nós, leitores bem irritados, mas Gamache não se importa e vamos ir entendendo seus motivos ao longo do livro.

Dinheiro sempre foi uma questão para os Finney. O pai deles tentou não colocá-lo como o mais importante, mas acabou sendo severo ao tentar dar amor aos filhos. Um clima de competição sempre esteve presente, todos os filhos queriam atenção exclusiva do pai, nunca houve um clima saudável e de companheirismo entre os irmãos. Por outro lado, mentiras, golpes e fingimentos eram comuns, eles gostavam de tocar na ferida um do outro, sabiam como machucar.

Os personagens têm muitas nuances, a gente cria uma ideia de cada um e vem uma novidade sobre eles que muda tudo que a gente imaginava. 

“A paisagem não importa. O interior, sim. Seu corpo pode estar em lugares lindíssimos, mas, se seu espírito estiver esmagado, não importa. Ser excluído, ser evitado, não é algo sem importância.” 

Um cubo no jardim
E do nada aparece um objeto estranho que destoa da paisagem natural, um cubo esquisito, o que era aquilo, pra que era?

Quando eu li que o assassinato nesse livro seria de uma estátua caindo, eu imaginei uma gárgula caindo do alto de um prédio, mas eu estava errada, sabe o cubo? Então, é para a estátua ficar em cima, uma estátua muito pesada, que é impossível para uma pessoa sozinha empurrar, mas o fato é que, essa estátua caiu em cima de alguém, matando a pessoa (não vou dizer quem morre para não ser spoiler) e a pergunta que a gente vai fazer o livro inteiro é: Como? Além de claro, quem é o assassino?

Temos no hotel, a família, os Gamache e também os funcionários, muitos jovens fazem parte da equipe com trabalhos temporários, vou destacar alguns dos personagens que estão no staff:
- a dona do hotel: uma senhora bem acolhedora, que trata aquele local como um santuário

- a chef: uma chef excelente, mas que se esconde na cozinha, não gosta de ser cumprimentada

- o maitrê: super eficiente e não gosta que nada fique fora do seu controle

- o garçom: um jovem rebelde que desafia a todos

- a jardineira: ela cuida do jardim e é muito observadora

E tal como num jogo de tabuleiro, temos todas as peças nas suas posições e na investigação, Gamache conta com a ajuda do seu braço direito, o Jean Guy Beauvoir e da agente Isabelle Lacoste, personagens já conhecidos para os leitores da série.

“Houve um silêncio aturdido. Ele via aquela transição em quase todos os dias de sua vida profissional. Sempre se sentia como um barqueiro, levando pessoas de uma costa para a outra. Do terreno acidentado, embora familiar, do luto e do choque, para um submundo visitado por poucos. Para uma costa onde as pessoas matavam de propósito.”

Vingança, ganância, remorso, são motivos os possíveis motivos, muitos personagens podem ser culpados, será que foi um complô? 

Eu nunca iria imaginar o assassino, fiquei muito chocada e a sequência até a gente descobrir é eletrizante. E ver tudo explicado, como o assassino conseguiu realizar esse crime impossível foi surpreendente demais! 

Esse livro também trouxe muitas lições de vida e reflexões, são vários aprendizados que vamos tendo ao longo do desenvolvimento, sobre como nos comunicamos com quem amamos, a gente mostra de verdade que ama? Sobre escolher contar as coisas boas da vida ao invés de só reclamar do que deu errado. 

Foi uma viagem bem intensa para Manoir Bellechasse e por lá a única regra é: proibido matar. 


Confira as resenhas dos outros livros da série: 

Livro 1: Natureza Morta 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Resenha: O mais cruel dos meses / Louise Penny

É Páscoa em Three Pines! Ovos de chocolate, ursos e o que os habitantes decidem fazer? Uma sessão espírita. E o inspetor-chefe Armand Gamache mais uma vez será contactado, porque durante a sessão uma pessoa morreu.

‘O mais cruel dos meses’ é o livro 3 da Série do Inspetor Gamache. A série faz parte da coleção Mistérios em série, da Editora Arqueiro, que são livros para ler sem medo, bons mistérios sem sangue ou cenas muito perturbadoras. Gamache é o inspetor-chefe que tem um faro excelente e conversar com as pessoas, segundo ele, é a melhor forma de descobrir quem é capaz de cometer crimes.

“Three Pines definitivamente não era estilosa, descolada, vanguardista... Nada ali havia sido projetado. O vilarejo parecia ter seguido o exemplo dos três pinheiros da praça e simplesmente brotado da terra ao longo do tempo”

Uma casa má assombrada?

A antiga casa dos Hadleys é praticamente um personagem. Muitas coisas assustadoras já aconteceram lá. E todos moradores de Three Pines sentiam que a casa ficava pairando, como uma espécie de espírito ruim, sobre o vilarejo.

Quando uma wicca chega a Three Pines para descansar e se hospeda na pousada do Gabri, ele não aguenta e pede para que ela promova uma sessão espírita a fim de tentar libertar o vilarejo de qualquer coisa ruim que por lá estivesse, mas quando a sessão após o almoço de páscoa não dá em nada. Eles resolvem marcar outra e lá na antiga casa dos Hadleys.

“O medo podia até impedir algumas pessoas de matar, mas com certeza era esse sentimento que levava a maioria das pessoas a cometer assassinatos. Era o que estava por baixo de todas as outras emoções. Era ele que distorcia e transformava as outras emoções em algo doentio. Ele era um alquimista que convertia a luz do dia em noite, a alegria, em desespero. Uma vez enraizado, o medo bloqueava o sol”

É possível morrer de medo?

Madeleine Favreau era luz. Em todo lugar que ela chegava, ela brilhava. Todo mundo queria ser amigo dela, todo mundo se apaixonava por ela, era como se ela fosse uma força da natureza. E é ela quem, a princípio, morre de medo durante a sessão.

“- O senhor amava Madeleine?

- Sim. Eu desafio o senhor a encontrar alguém que não a amasse.

- Alguém não a amava. Alguém a matou”

O por que antes do quem

Mas, numa rápida investigação Gamache e sua equipe percebem que a mulher foi assassinada. E eles irão novamente precisar descobrir quem é o assassino no meio daquele pacato vilarejo. Quem teria motivos para matar Madeleine? E por mais que ela fosse uma pessoa incrível, ao longo da investigação vamos descobrindo que muitas pessoas poderiam querer matá-la.

Personagens já conhecidos estão de volta e alguns novos são adicionados na trama, onde qualquer um deles pode ser o assassino, separei alguns deles aqui:

  • Clara e Peter: o casal de artistas. Ele esconde um segredo dela, esse casal dá muito nervoso, para o leitor que vê os sentimentos dos dois, não tem como não ficar com ranço do Peter.
  • Ruth: a poeta famosa e muito rabugenta, agora tem duas companhias bem inusitadas.
  • Myrna: a amante dos livros vai ajudar o Gamache com uma peça pro quebra cabeça
  • Agente Nichol: a contraditória agente, enfim, descobrimos todos seus segredos, com uma bela reviravolta.
  • Gabri: dono da pousada, ele quem propõe a sessão espírita
  • Odile: sonha em ser poeta. E que o homem que ela ama, a admire.
  • Hazel: amiga de Madelaine e ficou devastada com a morte
  • Sophie: filha da Hazel e vive com machucados estranhos.
  • Brébeuf: melhor amigo do Gamache, mas que esconde um grande segredo do inspetor
  • Jean Guy Beauvoir: o braço direito do Gamache
  • Gilles: um homem que prefere árvores à pessoas

O caso Arnot é revelado

Desde de o livro 1 esse caso foi citado, um caso que deixou Gamache em maus lençois junto a corporação. Ele denunciou crimes de um superior. E dividiu toda a polícia. Nesse livro descobrimos tudo que aconteceu nesse caso e além de encontrar um assassino, Gamache vai precisar descobrir quem está o traindo, nós leitores já sabemos desde o início, e dá muito nervoso de ver quem é, não vai ser fácil pro inspetor #pobiGamache. 

A temática principal do livro são os sentimentos. Como tudo em excesso pode ser perigoso. Amor demais pode virar idolatria, admiração pode virar inveja. E por ai vai. O mais interessante dos livros do Gamache é o desenvolvimento, todos os debates que chegam a níveis filosóficos fazem a gente refletir a bessa e pensar sobre nós mesmos. Ver sentimentos que a princípio podem ser bons se transformar em monstruosidades, ver pessoas comuns e boas se tornarem assassinas é o que torna essa série imperdível para os fãs de mistérios.

“- Abril é assim, não é?

- Imprevisível, o senhor quer dizer? É um mês difícil.

- Sol e calor em um dia e neve no outro. Shakespeare chamava isso de ‘a glória incerta de um dia de abril’.

- Eu prefiro a versão de T. S. Eliot: ‘O mais cruel dos meses’.”



Confira as resenhas dos livros anteriores:

Livro 1 – Natureza Morta

Livro 2 – Graça Fatal

A novidade é que série do Inspetor Gamache ganhou uma adaptação que estreia no Brasil na HBO, segundo o divulgado os episódios serão lançados semanalmente, nas segundas às 21h, a partir de hoje dia 27/02.

O ator Alfred Molina estrela como o nosso inspetor, estou curiosa para assistir! Pelo trailer, tudo indica que casos dos livros são misturados.

São 8 episódios com duração média de 53 minutos.

domingo, 23 de outubro de 2022

Resenha: Graça Fatal / Louise Penny

É Natal em Three Pines!

Tempo de paz, amor de estar junto com quem amamos, comprar presentes, jogar curling e no meio do maior festejo da cidade, na frente de todo mundo: um assassinato.

Como assim? Quem teve essa audácia de assassinar alguém na frente de tantas testemunhas sem ser visto? E não foi um assassinato comum, foi muito bem planejado durante o maior festejo de Natal da cidade, uma partida de curling.

“Era quase impossível eletrocutar alguém, a menos que você fosse o governador do Texas. Fazer isso em um lago congelado, na frente de dezenas de pessoas, era loucura. Alguém tinha sido insano o suficiente para tentar. Alguém tinha sido brilhante o suficiente para conseguir.”

Esse é o segundo livro da série Inspetor Gamache, você pode conferir a resenha do livro um, Natureza Morta, aqui. Entretanto não tem nenhum problema ler fora de ordem, todos os livros tem um caso único e resolvido no próprio livro. Os livros do Gamache fazem parte da coleção Mistérios em série, que são livros para ler sem medo, com investigações sem mortes macabras ou muito sangue.

E a pessoa que foi assassinada é ninguém menos que CC de Poitiers, entre todas pessoas que a conheceram, nenhuma delas gostava dela. Ela era o tipo de pessoa que quando chegava acaba com o clima, deixava todo mundo incomodado, se achava superior e não tinha pudor nenhum de dizer isso, além de esnobar todos ao seu redor. Bem, o fato é que, suspeitos não faltam. É mais fácil perguntar quem não queria matar CC de Poitiers.

Gamache então é convocado. Ele e sua esposa estão fazendo algo que fazem todo Natal: investigar casos não solucionados (cada um com suas esquisitices, né não). Ele se depara com um caso que o deixa cheio de questionamentos: a morte de uma moradora de rua, a Elle. Quem iria assassinar uma bondosa senhora, que nunca fez mal a ninguém? Ele se questionava e algo o dizia que tinha mais ali.

Logo no início do livro somos apresentados a CC, ela havia acabado de lançar um livro sobre sua própria filosofia de vida e estava preparando um outro mega lançamento, ela se achava muito superior aos moradores de Three Pines e a gente fica se perguntando o motivo que fez ela comprar uma casa lá e se mudar com sua família. E falando da sua família, seu marido era um inventor que nunca havia inventado algo de fato útil e rentável, e sua filha, além de sofrer bullying na escola, também era constantemente humilhada pela própria mãe. 

Conforme vamos lendo, chega num ponto que até nós mesmos viramos suspeitos, que pessoa insuportável e totalmente estraga prazeres era a CC!

O fotografo, Saul, quem a CC havia contratado para que ele fizesse registros de seu novo projeto, com quem ela tem um caso extraconjugal, a odeia e fica vendo os piores ângulos dela para fazer as fotos, seria ele o assassino? A lista só vai aumentando.

Os moradores, que foram apresentados no livro anterior estão de volta:

🌲Clara e Peter: o casal que ajudou Gamache no caso anterior novamente vai ser de grande auxílio, já que eles, sem saber possuem uma peça chave para desvendar todo o mistério. Tanto Clara quanto Peter são artistas, mas apenas o trabalho de Peter é reconhecido, Clara sonha em expor sua arte em grandes galerias. Ela ouviu CC falando mal de seu trabalho e ficou triste demais.

🌲Ruth: a escritora rabugenta, que acabara de lançar seu livro, estou bem DEMAIS, será mesmo? Ela julgava muito o livro que CC tinha lançado, já que nada fazia sentido nele.

🌲Mãe Bea: a guru de Three Pines, que tem um estúdio muito good vibes e outras duas melhores amigas, também senhoras e velhas moradoras de Three Pines. Mãe Bea ficou muito estressada depois de saber que CC usava mantras sem nem ter noção do que falava.

🌲Myrna: que sempre ajuda todo mundo e é amiga de todos, é dona da livraria da cidade, será que é apenas uma alma bondosa mesmo?

🌲Gabri e Oliver: o casal que tem uma pousada e um bistrô e sabem sempre de tudo que está acontecendo na cidade.

E na polícia também temos rostos conhecidos, o principal é o retorno da Agente Nichol, com quem Gamache teve um desentendimento e quem ele não conseguia confiar, será que vai dar certo? O pior é que Gamache acredita que mandaram ela de volta como uma forma de punição devido a um caso antigo e mal resolvido que vamos descobrindo ao longo das páginas.

E novamente lendo esse livro, eu me senti como num jogo de tabuleiro, os primeiros capítulos vão nos dando pistas, apresentando personagens e aos poucos as peças vão se juntando, vamos criando teorias até tudo ser desvendado, quando as peças vão se juntando é impossível largar o livro.

Quando a Gamache descobre que o livro da CC tem o mesmo nome do estúdio da Mãe Bea, ele fica muito intrigado, será apenas uma coincidência? E a forma que ele investiga envolve muito a observação. E o contexto do crime envolve tantos detalhes que faz com que a equipe policial precise tanto investigar lixeiras quanto ter aulas de História. 

O mais legal dos livros do Gamache, agora após ler o segundo, posso afirmar que sempre teremos muitas reflexões nas páginas, seja morais, religiosas, históricas. Ninguém é totalmente bom ou mau e Louise Penny através do Gamache consegue explorar muito bem todas as camadas que envolvem um ser-humano.

“Porque Armand Gamache sabia algo que muitos de seus colegas nunca entenderiam: assassinatos são profundamente humanos, tanto o assassino quanto a vítima. Descrever o assassino como um monstro, um ser grotesco, era dar uma vantagem injusta. Não. Assassinos eram humanos, e na raiz de cada assassinato havia uma emoção. Deformada, sem dúvida. Distorcida e feia. Mas uma emoção.”


Confira a resenha do livro 1 da série: Natureza Morta